Autobiografia

Nasci e cresci no Fundão, à época, uma pequena e acolhedora vila no centro de Portugal.

 

O meu avô materno era uma figura algo austera, bastante religiosa, mas sobretudo  um homem muito honrado. Recordo-o muitas vezes com saudade. Tinha uma loja modesta onde, além de produtos de mercearia,  vendia também santinhos, bonecos de presépio e estátuas em porcelana de Sagrados Corações. Na altura era normal venderem-se  coisas avulso,  às gramas,  em cartuchos de papel: 50 gramas de bicarbonato de soda, 125 gramas de arroz, 75 gramas de bolacha maria, 250 gramas de açucar amarelo, etc. As bolsas não davam para mais. Vendia também a melhor manteiga da terra, mas só a havia às vezes. Vinha do norte, de comboio, numa caixa de cartão engordurada e esgotava-se  em dois dias. Retirava-se de uma taça com uma colher de pau e fazia bolhinhas de água. Alguns  fregueses  oportunistas só compravam  a manteiga.

 

A minha família vivia na casa que ele tinha construído na rua logo abaixo, quando a minha mãe ainda era uma criança.  É um grande casarão e naquele tempo tinha um belo quintal cheio de árvores de fruto, sobretudo cerejeiras. Um verdadeiro  parque de aventuras para mim e  para os meus irmãos, mas também  para os miúdos da vizinhança. Habitavam-no  muitos  bichos, como é normal acontecer num quintal. Uns mais simpáticos, como  gatos, galinhas, pombas e pardais que tinham o dom de tornar as cerejas ainda mais doces, e outros mais antipáticos,  como aranhas gordas e amarelas, minhocas meio nojentas e  bonitos escaravelhos às riscas, mas maus porque faziam mal às batatas.

 

Quando vinha o Inverno era a espera pela neve que me criava ansiedades. Tive muitas insónias. Quando por fim lá nevava era uma alegria tão grande como a vinda do Pai Natal.  O  som dos farrapos de neve a cair pela manhã  na quietude do quintal, já almofadado de branco,  era uma experiência mágica. Pisar o tapete virgem e fofo daquele território intocado era o clímax.

 

Lembro-me dos pêssegos nas árvores,  mas também daqueles que a minha mãe pintava tão bem, dentro de taças de vidro, em bonitas naturezas mortas. Pareciam mesmo verdadeiros. Ainda hoje lá estão, na parede da sala,  junto aos desenhos que fez no colégio das freiras quando tinha dez anos de idade. Com noventa ainda pintava.  Sou o que sou também por sua causa. Fiquei guardião da sua caixa de pintura.

 

Ao meu pai nada mais lhe interessava para além da música. Tocava vários instrumentos. Houve uma época em que andava fascinado com o som do saxofone do Gato Barbieri. Mas também gostava do Fausto Papetti. Os seus  interesses iam mudando. Tocava músicas dos Pink Floyd em bailes de finalistas.  Eu ia com ele e sentia-me especial. É uma boa imagem para se ficar.

 

Mas esse gosto pela música já lhe estava nos genes. O meu avô paterno tinha a mesma paixão. Era o orgulhoso mestre da banda filarmónica. Sofria por ela como um adepto sofre pela sua equipa. Vejo-o ainda encostado ao balcão da loja de solas e cabedais  copiando partituras o dia inteiro com esferográficas bic, azuis e vermelhas, até ser interrompido por algum freguês que entrava para comprar um par de atacadores ou uma caixa de graxa. Creio que terá ensinado, gratuitamente, as primeiras notas de música  a centenas de crianças.  Ele e a minha avó davam-me  moedas de cinco e  dez tostões. Ele preenchia boletins do totobola com o meu nome.

 

Estas são apenas algumas memórias que tiveram uma importância maior do que eu poderia ter imaginado. Elas estão na origem de toda a minha linguagem pictórica. Em determinado momento julguei que tudo isso fazia parte do passado. Não podia estar mais errado.

 

João Vaz de Carvalho