Rui Pelejão

 

Humor cão e os bichos de João Vaz de Carvalho

O mundo, o país, a região e as pessoas em geral e as das redes sociais em particular andam com um humor cão. A rosnadela é a nova forma de comunicação humana.
O caso não é para menos.

Segundo estudos internacionais, a pandemia conduziu a um estado depressivo global, o que devidamente temperado com extremismos, fanatismos, intolerâncias e a triunfal marcha da ignorância, leva o bom humor pelo ralo. E, quando o humor definha, o espírito humano acabresta-se.

Vive-se o tempo dos sorumbáticos, dos fatalistas, dos cavernosos e daqueles que confundem ser sério com levar-se a sério. Os exemplos estão aí e, aparte dos humoristas profissionais que lá vão tentando ganhar a vidinha a fazer-nos rir, a verdade é que vivemos numa espécie de feira cabisbaixa. Parecemos incapazes de rir às bandeiras despregadas ou sequer dizer uma boa piada, até porque os vigilantes do politicamente correto e os bófias taciturnos andam aí por todo o lado, na política, nas televisões, nos cafés, nos jornais, nas redes sociais, na literatura e no cinema.
Faça lá um exercício de auto-conhecimento e lembre-se da última vez que soltou uma sonora gargalhada ou disse uma boa piada?

O humor é a inteligência a rir-se e ultimamente a inteligência tem tido pouco motivos para se rir, ao contrário da ignorância. Agustina Bessa-Luís, uma culta e subtil praticante da arte da ironia defendia que “O humor é, nas pessoas, um elemento terrivelmente desconhecido. Pode unir um povo inteiro como não o fazem os costumes e a própria língua.” Isto é verdade, nada como o bom humor ou uma boa almoçarada para unir as pessoas.

Há humores para todos os géneros: eu confesso que aprecio o género subtil, irónico e sarcástico, que parece ter sido varrido da literatura e das artes portuguesa desde que o Eça e o Ramalho Ortigão arrumaram a pena. Bem, isto é claro um exagero, mas penso que há uma cultura instalada de seriedade em Portugal que menoriza e despreza o humor, mesmo que faça de humoristas estrelas pop-limão.

Em Portugal o humor não é levado a sério, porque a maior parte das pessoas se leva demasiado a sério.

Eu gosto do humor que se constrói, desconstruindo. A desconstrução cria a noção do ridículo das falsas morais e das importâncias de papelão.
A sátira e o humor são poderosas armas sociais, das poucas que nos restam para combater as injustiças, os tiranetes, os moralistas e a ignorância.

Humor incisivo, de poucas palavras, atiradas como farpas bem afiadas. Curiosamente os meus “humoristas” preferidos em Portugal não são os de stand-up ou instagram. Os meus humoristas preferidos são os artistas do desenho e do bom espírito. Os cartoons do Luis Afonso ou do Nuno Saraiva e todo o universo e imaginário do João Vaz de Carvalho.

Para os desafortunados que não conhecem este último, é um notável pintor e ilustrador natural do Fundão, que tem por estes dias patente ao público a exposição “Bichos” na Biblioteca Municipal Eugénio de Andrade. Fica a resenha: “Bichos” é uma exposição composta por um conjunto de ilustrações realizadas para cinco diferentes livros de poesia para crianças, da autoria de escritores portugueses como Luísa Ducla Soares, José Jorge Letria, António Mota e José Fanha, musicados e cantados por Daniel Completo.”

O divertido bestiário que esta exposição nos propõe é apenas uma porta de entrada para o imaginário e o universo criativo de João Vaz de Carvalho, que consegue imprimir nos seus “bonecos” e composições à Bruegel uma candura e uma comovente humanidade que nos liga aos seus personagens, porque neles revemos um pouco do que somos no absurdo das pequenas coisas.

É essa capacidade de nos rirmos de nós próprios que importa resgatar para alcançar o sublime do humor, que segundo o filósofo Schopenhauer “é a única qualidade divina do homem.”
Pode começar por visitar esta exposição que lhe garante vinte minutos de bom humor, o que nos tempos que correm não é coisa pouca. Ainda por cima, a entrada, tal como o sorriso, é livre.

Rui Pelejão/Jornal do Fundão